Sunil ShahO Tour d'Afrique é oficialmente a corrida de bicicletas mais longa do mundo (o que pode ser verificado no Guinness, o livros dos Recordes) e eu gostaria de oferecer algumas dicas para alguém que esteja pensando em participar nos próximo anos. Baseio-me em minhas experiências e observações nos últimos 3 meses, e por isso, no atual formato da prova. No início da viagem, havia 35 pessoas (dos 60 participantes) competindo, e no momento em que escrevo, menos de 25.
Breve explicação de como a prova funciona (em 2010)O Tour é dividido em 96 etapas individuais (apesar de, para nós, ser 95 por causa do dia livre extra que tivemos quando um dos veículos de apoio estragou) e cada etapa é uma prova aparte. Além das etapas individuais, há seções compostas por várias etapas – geralmente (mas nem sempre) de uma capital à outra. Há resultados separados para cada etapa, para cada seção, e para a prova inteira.
Todos os dias, cada competidor, equipado com um botão de tempo, irá cronometrar o tempo de um acampamento ao outro. O tempo é arredondado em minutos, e registrado a cada etapa. O ranking é baseado no tempo, sendo o vencedor aquele com o menor tempo. Assim, há rankings de cada etapa, seção, e de todo o Tour. Mesmo que não participe de toda a prova, qualquer ciclista no Tour pode escolher competir uma determinada seção e pontuará no ranking daquela seção.
A corrida do dia pode não ser toda a etapa, podendo o Diretor da prova optar por terminá-la mais cedo em dias em que, por alguma razão, possa ser logisticamente impossível ou até mesmo perigoso competir - i.e. dias de fronteiras, ou chegando em grandes cidades. Em algumas ocasiões, por motivos parecidos, etapas inteiras não serão competidas, e todos recebem o mesmo tempo por aquele dia (ainda assim pedala-se todo o trecho, mas não como uma competição).
Se um competidor não termina uma etapa, por qualquer razão, seu tempo do dia será de 12 horas. Por outro lado, no ato de calcular a soma geral dos tempos, cada competidor recebe 3 dias de “brinde”, que cancelam os tempos de suas etapas mais longas. Por fim, há várias etapas obrigatórias, que são particularmente longas e/ou pesadas. Esses dias obrigatórios não podem ser utilizados como dias de “brinde”. O vencedor de cada uma dessas etapas obrigatórias recebe ainda um bônus de 30 minutos. Qualquer competidor que termine a prova intacto, com o status EFI (Every Fabolous Inch) dado para aqueles que pedalaram cada metro dos 12 mil km da prova, recebe ainda um bônus de 6 horas em seu tempo.
Competir o Tour é diferente de simplesmente participar, em vários aspectos que listo abaixo.
1. Tirar menos fotografiasNormalmente, para tirar fotos decentes, você tem que diminuir sua velocidade,ou até mesmo parar. Na maioria das vezes, essa não é uma opção se você está preocupado com seu tempo ou, especialmente se você está pedalando com outras pessoas (ver item 3). A mentalidade dos competidores é a de que nada deva atrapalhar o caminho.
2. Almoços mais curtosNão há um mecanismo para descontar o tempo do almoço – isso parece uma falha técnica do Tour d’Afrique mais que algo proposital. O tempo que você escolhe parar para comer conta para seu tempo total. Isso significa que, nos dias que você está tentando uma boa colocação, não vai querer perder tempo comendo. Alguns competidores nem mesmo param para o almoço, outros param, pegam água e voltam para a estrada. Não é justo, mas é crucial quando cada minuto importa.
3. Trabalhar em equipesÉ necessário e extremamente vantajoso pedalar com outros ciclistas. Em algumas etapas (montanhas e estradas de terra) nem sempre é possível, mas em dias mais longos de estrada será o diferencial entre pontuar bem e apenas sobreviver ao pedal. Economiza-se bastante energia quando pegando vácuo, e em uma prova de 120 km, quanto mais energia você economizar, melhor.
4. Escolher os diasO Tour é uma prova longa – doenças e exaustão irão, muito provavelmente, ocorrer em algum momento. Nenhum competidor consegue competir todos os dias sem fadiga, e a melhor estratégia parece ser escolher os dias em que você deseja pontuar bem. Nos outros dias, ainda assim é necessário pedalar bem (para manter um bom tempo total) mas você não precisa se manter a 90% para ganhar uma hora e manter-se bem. Em alguns dias, é uma questão de sobreviver – conseguir pedalar até o próximo destino.
Jethro, um dos ciclistas mais fortes esse ano, escolhe seus dias – em dias com muitas subidas, nais quais ele é muito veloz, ele pedala duro e elimina a concorrência. Nos outros, ele pedala um pouco mais tranquilo e se recupera. No que se refere a consistência, Rod e Juliana são sempre velozes e, em algumas etapas, são tao rápidos quanto os ciclistas mais fortes. Eles pedalam em uma cadência que consideram confortável, e o resultado é que ele conseguem manter seu ritmo, dia após dia.
5. Saber escolher seu equipamentoFalhas mecânicas podem ser evitadas, facilmente, pela escolha correta de equipamentos e um pequeno estoque de peças de reposição. Um dos ciclistas mais fortes que está aqui foi muito prejudicado por furos por causa de sua insistência em pedalar com pneus extremamente finos, mesmo nas etapas com os piores terrenos.
Conheça seus pontos fracos. Se você não é tao bom na terra, escolha uma bike que torne as pedaladas na terra mais fáceis. Peças intercambiáveis também ajudam muito - um canote Thudebuster para as seções de terra e outro rígido para as asfaltadas. Se possível, traga um garfo de suspensão – você não vai se arrepender. A maioria dos participantes está em bikes de cyclocross, ou pelo menos com guidãos estilo drop – traga manetes de freio de guidão reto, que podem ser instalados na parte mais alta do guidão, além das manetes próprias para drop. Traga pneus mais largos para os trechos de terra, eles te darão mais confiança, o que te ajudará a andar mais rápido.
6. Pedalar com segurançaAcidentes podem acabar mal, resultando em dias perdidos (e tempos de 12 horas) ou até mesmo em ter que deixar o Tour. Quando competindo, é fácil empolgar-se e correr riscos desnecessários. Fui extremamente sortudo quando me acidentei, e não precisei ficar parado, mas muitos outros competidores não tiveram a mesma sorte.
7. Sair tarde Uma das táticas favoritas entre os competidores é a de sair (em grupo) do acampamento um pouco mais tarde . Em grupo, é mais fácil manter um ritmo mais forte e alcançar os competidores mais lentos – quando você alcança alguém que saiu antes, você praticamente os vence. Se você sai mais cedo e consegue manter um ritmo bom, você pode não ser alcançado, mas são grandes as chances de que te alcancem.
8.Não adoecer Falar é fácil, mas doenças irão aumentar bastante seu tempo e tornar muito mais difícil terminar as etapas. Problemas de estômago podem acabar com seu apetite, e não conseguir comer bem é a receita do desastre. Além disso, ter que parar a todo momento por causa de uma diarreia torna bem mais difícil manter a competitividade. Praticamente todos os competidores adoeceram em algum momento.
Já que existe a opção, provavelmente eu escolheria não competir se me inscrevesse no Tour novamente. Apesar da corrida estar sendo divertida, e se eu terminar vou poder dizer que completei a mais longa prova de ciclismo do mundo, não sou um ciclista competitivo o suficiente para fazer valer a pena todo o sacrifício. Vou tentar tirar mais fotografias nas próximas (as últimas) 5 semanas, mas vou tentar manter minha 10ª posição no ranking. Dito isso, a competição, assim como o status de EFI (para quem pedalou cada centímetro da prova), é uma enorme motivação nas etapas mais difíceis.
Se você pensa que pode vencer essa corrida, ou mesmo uma das seções, inscreva-se para competir. Se você está mais interessado em experienciar o continente africano, então é melhor se inscrever como um cicloturista na expedição e, quem sabe, competir em determinadas seções – isso não significa que você irá pedalar devagar ou que será fácil (acredite), significa simplesmente que você não estará sempre com tanta pressa.
Escrito por Sunil Shah, competidor britânico no Tour d'Afrique 2010, em 11 de abril de 2010 (em seu blog www.geekonabicycle.co.uk).
Tradução livre